Entrevista com o Fábio Tal

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O Prof. Fábio Armando Tal, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP e primeiro Bacharel em Ciências Moleculares a integrar o corpo docente da USP, fala sobre seu envolvimento com a matemática, multidisciplinaridade, e a experiência de voltar ao curso como professor.

por Ricardo dos Santos Freire Jr.

Entrevista

Como você conheceu o Curso de Ciências Moleculares (CCM)? O que o levou a se inscrever neste curso?

Eu soube do CCM (na época ainda era CECM, Curso Experimental de Ciências Moleculares) pela cartinha de divulgação do curso que a coordenação enviava para uma parte dos aprovados pela FUVEST. Até receber a carta eu nunca tinha ouvido falar do curso, estava no primeiro semestre do bacharelado em ciência da computação. Eles estavam convidando os interessados para assistir à formatura da primeira turma, e eu resolvi assistir e conhecer um pouco mais do curso. Bem, na formatura eu fui exposto à minha primeira aula do Fleming. O discurso de paraninfo da turma que ele proferiu foi sobre a multidisciplinaridade, passando por Tomás de Aquino. Deixou-me encantado, como várias vezes posteriormente a aula dele me deixou. A possibilidade de participar de um curso onde eu poderia aprender sobre diversas áreas distintas pareceu-me muito interessante. Também me agradou a idéia divulgada de que a turma seria composta por pessoas muito capacitadas e interessadas. Eu estava sofrendo um pouco com a apatia dos alunos nas aulas do primeiro semestre.

A sua participação no processo seletivo do CCM foi muito incomum. Como foi o processo de ingresso para você?

Eu dei um pouco de sorte. O processo seletivo foi divulgado como composto de uma única prova. Mas no dia da prova nos avisaram que uma dinâmica de grupo seria feita na semana seguinte (acho que foi a primeira vez que introduziram a dinâmica). Eu estava de viagem marcada para Israel, ia visitar uma parte da minha família, e só retornaria na metade de agosto, e perguntei para o Prof. Piza se poderia fazer uma entrevista depois que eu retornasse. Ele falou que possivelmente, mas não deu muita certeza. Por algum motivo aceitaram, e quando eu retornei tive uma entrevista com a Profa. Regina Markus, que achou que eu me enquadraria no perfil e aceitou que eu entrasse no curso. Foi uma atitude legal da parte dela, pois a entrevista só foi feita duas semanas depois do início das aulas do semestre. E como foi sua vida durante o ciclo básico? Como você via a multidisciplinaridade e como ela afetou sua formação?

Acho que minha vida no ciclo básico foi normal. Eu não era o aluno mais assíduo, mas compensava estudando em outros momentos (na verdade eu trocava um pouco o horário da manhã pela madrugada). A multidisciplinaridade foi algo muito interessante por três semestres. Eu sempre me considerei alguém com interesses muito diversos, e o curso me deu a oportunidade de aprender mais sobre diversos assuntos, antes de finalmente me restringir a um campo mais específico. Porém, já no quarto semestre eu tinha muito clara a minha opção. Acho que foi para mim o único momento em que pesou ter que estudar química e biologia.

Como você definiu seu ciclo avançado? Como você foi parar em matemática?

Bem, eu era claramente um cara de exatas. Mas o Mané, Prof. Manuel V. P. Garcia, incentivou-me desde o primeiro semestre a pensar e tentar resolver problemas de matemática que me testavam. Um pouco pelo desafio, um pouco para tentar conhecer o que eu conseguiria resolver, eu comecei a me interessar e trabalhar, e quando percebi esse tipo de atividade tinha despertado algo em mim que ficou até hoje, um gosto por tentar resolver problemas que é típico da pesquisa em matemática. Então o Mané montou para mim um programa do ciclo avançado que completava a minha formação em matemática aplicada, e por aí eu fiquei.

E como foi seu ciclo avançado? Você trabalhou em muitos problemas? Participou de muitos encontros especializados? Sua orientação foi muito formal?

O ciclo avançado foi tranqüilo. Eu trabalhei em diversos problemas na minha iniciação científica, como o problema de Collatz, o problema da existência de progressões aritméticas nos números primos, o problema da determinação de máximos e mínimos de funções de várias variáveis. Mais ou menos tudo em que eu me interessava, eu acabava mexendo um pouco. Era uma iniciação muito pouco formal: eu estava lá, perturbando o Mané a qualquer momento, estacionava na sala dele e ficava, sei lá, duas, três horas seguidas e ele com toda a paciência do mundo explicando-me sobre qualquer assunto que eu perguntasse. A iniciação teve alguns bons resultados. Nós apresentamos quatro trabalhos em congressos diferentes, e um destes trabalhos saiu numa revista boa, o que me ajudou a ultrapassar algumas barreiras burocráticas no futuro. A participação nos congressos desde cedo ajudou-me a conhecer as pessoas que fazem matemática tanto na universidade como fora dela.

Você foi um dos primeiros alunos do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP a fazer doutorado direto. Como foi esta experiência? Você já tinha esta idéia quando ingressou na pós-graduação?

Eu entrei na pós para fazer mestrado. Minha idéia era terminar o mestrado em dois anos e sair para fazer doutorado fora. A dissertação seria sobre o problema de Collatz, uma extensão do artigo publicado. Mas eu também trabalhava, mais despretensiosamente, no problema da Inversão do Teorema de Dirichlet-Lagrange, um problema já bem antigo. Enquanto eu terminava as matérias do mestrado, eu dei sorte e consegui encontrar uma resposta parcial para este problema, que era desconhecida, e que poderia ser aceita como uma tese de doutorado. Ficou claro para o Mané e para mim que valia mais a pena eu passar para o programa de doutorado direto e depois fazer um pós-doutorado fora. E foi isso que aconteceu. O IME não impôs muita burocracia, apesar de ser um dos primeiros casos. Acho que o instituto já estava buscando promover este tipo de programa.

Você seguiu no doutorado com o mesmo orientador da sua iniciação científica. Quais foram as principais diferenças entre seu trabalho no ciclo avançado e sua pesquisa no doutorado?

Bem, acho que a qualidade do que a gente produziu. Pessoalmente, acho que a dinâmica da iniciação e do doutorado eram parecidas. A gente se reunia muito freqüentemente, e desenvolveu uma grande amizade que continua até hoje. Mas na iniciação eu ainda não tinha o conhecimento matemático para trabalhar com profundidade em algumas áreas da matemática, então toda produção tinha que ser mais na base da criatividade. Depois deu para juntar a técnica, o que permitiu tirar resultados melhores.

Apesar do seu currículo, você teve alguns problemas com bolsas. Gostaria de comentar um pouco isso?

Bem, eu tinha uma bolsa do CNPq para fazer o meu mestrado. E aí, quando eu passei para o doutorado direto após dois anos, a bolsa de mestrado não podia continuar, e nenhuma agência topava financiar um programa de doutorado direto após dois anos. Parecia que eu ia ficar sem dinheiro, porque a burocracia não estava acostumada a lidar com um caso diferente e, na época, eu era o primeiro caso do IME que tinha mudado no meio do programa para o doutorado direto. Mas o Prof. Sérgio Oliva conseguiu uma bolsa diretamente com a pró-reitoria de pós que financiou os últimos seis meses do programa.

Você mudou de área no seu pós-doutorado. Como foi essa decisão? Como você escolheu onde trabalhar?

Honestamente, eu primeiro decidi que queria morar em Nova Iorque, e depois mudei de área. Não, eu não recomendo isso para ninguém, mas foi o que aconteceu. Eu tive a oportunidade de trabalhar no Courant Institute da New York University, que é um dos melhores centros de matemática do mundo, especialmente em matemática aplicada, em que ele está entre os três primeiros. E o Prof. Clodoaldo Ragazzo, que tinha se doutorado no Courant, me falou que poderia me recomendar para trabalhar com o Prof. Esteban Tabak, que trabalhava em EDPs (equações diferenciais parciais) e mecânica dos fluidos geofísicos. Como era pós-doutorado, mais ou menos eu iria para lá e se desse certo com ele tentava trabalhar nesta área, e no meio tempo eu tentaria procurar me enturmar com os possíveis grupos de pesquisa. Se fosse para considerar a área que eu já tinha trabalhado no doutorado, o certo seria ter ido para a Itália, mas eu achava que ainda era muito jovem, e que aprender mais de uma área só podia fazer bem (o mesmo princípio que me levou a escolher um curso multidisciplinar). Acabou que eu e o Esteban nos demos muito bem, tanto pessoalmente como academicamente, e até hoje a gente trabalha em colaboração, apesar da distância. Mas eu tomei uma canseira até conseguir mexer nesta área nova.

E como foi o tempo do seu pós-doutorado? Você viveu em Nova Iorque depois do 11 de setembro de 2001. Como foi esta experiência?

Tanto o pós-doutorado como morar em Nova Iorque foram experiências incríveis. Academicamente, passar dois anos num instituto em que, a cada semana, você tem acesso a seminários ou aulas dos caras mais famosos do mundo, isso é daquelas coisas que você precisa aproveitar ao máximo. E mostrou para mim um outro lado do que é feito em matemática, que é diferente um pouco do que se faz aqui no Brasil. Sobre morar em Nova Iorque, ela é uma cidade incrível. O acesso a todo o tipo de culturas e pessoas diferentes, italianos, paquistaneses, chineses, mexicanos, porto-riquenhos, ingleses, americanos, alemães, etc. Você se sente um pouco numa cidade que é quase como uma "capital" do mundo. E apesar de uma certa paranóia do país com os atentados, a cidade não passava esse clima xenófobo. O único momento em que eu me senti ideologicamente mal de estar nos EUA foi quando começou a guerra com o Iraque. Neste dia eu queria muito sair. E depois de um tempo você sente muita falta dos amigos, da família, e ou o povo lá é um pouco mais frio, ou a gente está menos acostumado aos códigos deles.

Você foi o primeiro Bacharel em Ciências Moleculares contratado pela USP. Como você foi recebido pelo departamento no IME-USP?

Eu fui contratado pelo Departamento de Matemática Aplicada do IME-USP. Para mim foi ótimo, era o emprego que eu desejava desde que entrei no ciclo avançado, senti-me em casa. Eu sinto que já tinha desenvolvido, durante a iniciação científica e o doutorado, um ótimo relacionamento com o departamento, e fui muito bem recebido.

E qual foi a sensação de voltar ao CCM, agora como professor?

Isso foi muito bom. Realmente, dar aula no CCM é uma grande satisfação. Acho que todo mundo pensa em algum dia voltar para dar aula no curso em que se graduou, então considero uma realização pessoal. Além disso, a turma é muito boa e interessada. Você pode ensinar mais e isso permite que você se sinta mais satisfeito como professor.

Sobre sua pesquisa, em que áreas você trabalha hoje? E como você considera que sua passagem pelo CCM influencia seu trabalho atual?

Eu trabalho em três áreas diferentes, todas dentro da matemática aplicada. A primeira, na qual eu fiz meu doutorado, é estabilidade, que fica mais ou menos entre sistemas dinâmicos e EDOs (equações diferenciais ordinárias). A segunda é na modelagem matemática de fluidos geofísicos. E a terceira é no estudo de processos meta-estáveis, em geral em sistemas ergódicos. Estabilidade é uma área que nasceu na mecânica clássica, mas o enfoque com que hoje eu estudo tem mais interesse para os matemáticos. A modelagem de fluidos geofísico é uma área muito interdisciplinar, envolvendo não apenas o ferramental matemático, mas também a sua percepção de quais fenômenos são ou não são fisicamente relevantes, e para isso é fundamental o aprendizado interdisciplinar que eu tive. E na terceira linha, o estudo de processos meta-estáveis, o que eu estou fazendo é tentar trazer para a matemática algumas idéias que os físico-químicos tiveram, e que a gente está formalizando, além de tentar contribuir com algumas possíveis linhas novas. Quer dizer, apesar de ter feito um ciclo avançado todo voltado para a matemática, no final eu retornei um pouco às raízes interdisciplinares. Uma coisa que me alegra é ter um artigo no Journal of Mathematical Biology, e outro no Journal of Physical Chemistry.

Quais seus planos para o futuro do seu trabalho?

Acho que o plano é continuar com o que eu tenho feito, muitas das linhas que eu estudo ainda estão na sua infância e pode render mais frutos. Mas eu acho fundamental sempre manter o contato acadêmico com outras instituições e com o exterior. Isso evita que você se isole e proporciona uma perspectiva maior do seu trabalho.

Ainda sobre a pesquisa em matemática, como um jovem pesquisador como você avalia a área no Brasil e no mundo? Quais os principais desafios pra quem está começando?

O Brasil produz muita matemática de qualidade excelente, realmente muito do que é feito no Brasil é comparável com qualquer lugar do mundo. Mas eu acho que nós sofremos um pouco com a falta de diversidade na nossa pesquisa. Ou seja, nós estudamos algumas coisas muito a fundo, e ignoramos muitas outras áreas. Isso talvez seja um pouco decorrência do nosso isolamento, tanto por motivos geográficos - estamos mais afastados dos grandes centros de pesquisa - quanto por motivos financeiros (é muito mais fácil conseguir financiamento para congressos internacionais nos EUA e na Europa do que aqui). Sobre os desafios, bem, houve uma expansão muito grande do número de doutores e mestres ultimamente, e isto ainda não foi acompanhado por vagas nas universidades que incentivam a pesquisa, logo a competição por este tipo de trabalho aumentou muito. Além disso, as agências financiadoras estão diminuindo as verbas para programas no exterior, e eu ainda acho que este tipo de experiência é imprescindível. Finalmente, eu acho que existe um grande espaço para o trabalho do matemático aplicado fora da academia, mas este espaço ainda é virtualmente desocupado, pois nem o mercado parece se dar conta de que poderia ganhar muito com esses profissionais, nem os matemáticos que não querem se restringir à academia se organizam ou se adaptam para mostrar como podem contribuir. Mas que o espaço está aí, ele está.

Finalmente, você poderia comentar como o CCM influenciou sua carreira em linhas gerais? Você acha que ele ajudou mais do que atrapalhou? Como você enxerga o curso hoje, que você acompanha como professor, comparado ao que você via como aluno?

O CCM foi muito importante na minha carreira, principalmente até na própria escolha de ter uma carreira acadêmica. Depois, nas oportunidades de pesquisa desde a iniciação, no contato com docentes mais dedicados do que o costume, e na postura frente à interação de áreas. Talvez o curso tenha me custado uma formação mais completa em matemática: eu nunca tive um treino formal em algumas áreas como álgebra (sempre falo disso de uma maneira um pouco jocosa, mas, apesar das piadas, isso não deixa de ser uma verdadeira deficiência), ou até mesmo algumas matérias da geometria. Sobre o curso, é muito complicado comparar a maneira como eu via o curso dez anos atrás e agora, menos pela mudança do curso do que pela minha mudança pessoal. Eu entrei no CCM pensando que ele seria algo como um clube de gênios, buscando até mesmo me testar um pouco, e com o tempo percebi que essa idéia estava errada, que apesar de vários alunos no CCM possuírem um talento muito acima da média, o diferencial estava na postura, como classe e turma, de buscar aprender com gosto, aumentar o conhecimento um pouco pelo prazer de saber mais. Eu acho que é esta postura que incentiva os professores e que leva à qualidade da formação.

O entrevistador agradece ao professor Manuel V. P. Garcia, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, pelas inúmeras sugestões sobre os temas e questões

Sobre o entrevistador: Ricardo dos Santos Freire Jr., é Bacharel em Ciências Moleculares pela turma 9. Atualmente, está fazendo seu doutorado no Departamento de Matemática Aplicada do Instituto de Matemática e Estatística da USP.